segunda-feira, 22 de maio de 2017

Deixem-me, ao menos, o silêncio

Miguel Martins, in: A metafísica das t-shirts brancas. Edições 50 Kg, Porto, 2012


Deixem-me, ao menos, o silêncio,
o lugar vazio onde morrer sozinho,
ou junto dos que a morte – a escuridão –
levou antes que a vida mos tirasse.
Não dancem derredor da minha gruta,
tugúrio imperial atapetado
de ervas daninhas ou flora intestinal,
cilícios naturais da minha seita.
Creio-me Deus, como sempre me cri,
e um gajo porreiro em cima disso,
pastor de gatos pardos violentados,
enquanto estes me querem a seu lado,
e ao meu cajado que sabemos manso.
As minhas Regras, monge macambúzio,
são poucas e são simples; o teatro
da ordem imperando sobre o vento;
a ocasional sandes de couratos;
e o vinho esfoliando a pele do Tempo.
Do Amor nada sei, fui sempre só,
excepto por transcendência imerecida:
houve quem me escutasse antes da ida
para outras freguesias, mais amenas.
Sou eu que salto (janela sem moldura)
para fora do tempo em que me movo,
por tanto me agredirem a alegria
e a liberdade dos que se crêem corças
(outros leões, protozoários, ratos),
dos que se crêem aqui e aquém do Mundo.
Do Amor nada sei, sabei-lo bem.

domingo, 30 de abril de 2017

Maria Izquierdo

Pinturas Diversas

 
Mãe Proletária, ????
Cavalos no Rio, ????
Mulher e Cavalo, 1938
Banhistas, 1938
Autorretrato, 1940
Mulher Ante o Espelho, 1940
Alacena, 1942
Maternidade, 1944
A Terra, 1945



sábado, 29 de abril de 2017

Oração aos vivos para que sejam perdoados por estarem vivos

Poema de Charlotte Delbo. Tradução de Luis Felipe Parrado.




Eu suplico-vos
fazei qualquer coisa
aprendei um passo
uma dança
alguma coisa que vos justifique
que vos dê o direito
de vestir a vossa pele o vosso pêlo
aprendei a andar e a rir
porque será completamente estúpido
no fim
que tantos tenham sido mortos
e que vós viveis
sem nada fazer da vossa vida.