quarta-feira, 1 de novembro de 2017

EM FACE DOS ÚLTIMOS ACONTECIMENTOS

Poema de Carlos Drummond de Andrade, In: Brejo das Almas. Pág. 28. Editora Companhia das Letras. 2013


Oh! sejamos pornográficos
(docemente pornográficos).
Por que seremos mais castos
Que o nosso avô português?
Oh ! sejamos navegantes,
bandeirantes e guerreiros,
sejamos tudo que quiserem,
sobretudo pornográficos.
A tarde pode ser triste
e as mulheres podem doer
como dói um soco no olho
(pornográficos, pornográficos).
Teus amigos estão sorrindo
de tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
Fosse a última resolução.
Não compreendem, coitados
que o melhor é ser pornográfico.
Propõe isso a teu vizinho,
ao condutor do teu bonde,
a todas as criaturas
que são inúteis e existem,
propõe ao homem de óculos
e à mulher da trouxa de roupa.
Dize a todos: Meus irmãos,
não quereis ser pornográficos?

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Capitães da Areia

Um Filme de Cecília Amado


Sinopse: Capitães da Areia é um drama de autoria do escritor brasileiro Jorge Amado, escrito em 1937. O livro retrata a vida de um grupo de menores abandonados, chamados de "Capitães da Areia", ambientado na cidade de Salvador dos anos 1930.






sábado, 28 de outubro de 2017

Brasí de Baxo e Brasí de Cima

Poema de Patativa do Assaré


Meu compadre Zé Fulô,
Meu amigo e companhêro,
Faz quage um ano que eu tô
Neste Rio de Janêro;
Eu saí do Carirí
Maginando que isto aqui
Era uma terra de sorte,
Mas fique sabendo tu
Que a misera aqui no Sú
É esta mesma do Norte.

Tudo o que procuro acho.
Eu pude vê neste crima,
Que tem o Brasí de Baxo
E tem o Brasí de Cima.
Brasí de baxo, coitado!
É um pobre abandonado;
O de Cima tem cartaz,
Um do ôtro é bem deferente:
Brasí de Cima é pra frente,
Brasí de Baxo é pra trás.

Aqui no Brasí de Cima,
Não há dô nem indigença,
Reina o mais soave crima
De riqueza e de opulença;
Só se fala de progresso,
Riqueza e novo processo
De grandeza e produção.
Porém, no Brasí de Baxo
Sofre a fême e sofre o macho
A mais dura privação.

O Brasí de cima festeja
Com orquestra e com banquete,
De uísque dréa e cerveja
Não tem quem conte os rodete.
Brasí de baxo, coitado!
Vê das casa despejado
Home, menino e muié
Sem achá onde morá
Proque não pode pagá
O dinhêro do alugué.

No Brasí de Cima anda
As trombeta em arto som
Ispaiando as propaganda
De tudo aquilo que é bom.
No Brasí de Baxo a fome
Matrata, fere e consome
Sem ninguém lhe defendê;
O desgraçado operaro
Ganha um pequeno salaro
Que não dá pra vivê.

Inquanto o Brasí de cima
Fala de transformação,
Indústra, matéra-prima,
Descoberta e invenção,
No Brasí de Baxo isiste
O drama penoso e triste
Da negra necissidade;
É uma cousa sem jeito
E o povo não tem dereito
Nem de dizê a verdade.

No Brasí de Baxo eu vejo
Nas ponta das pobre rua
O descontente cortejo
De criança quage nua.
Vai um grupo de garoto
Faminto, doente e roto
Mode caçá o que cumê
Onde os carro põem o lixo,
Como se eles fosse bicho
Sem direito de vivê.

Estas pequena pessoa,
Estes fio do abandono,
Que veve vagando à toa
Como objeto sem dono,
De manêra que horroriza,
Deitado pela marquiza,
Dromindo aqui e aculá
No mais penoso relaxo,
É deste Brasí de Baxo
A crasse dos marginá.

Meu Brasi de Baxo, amigo,
Pra onde é que você vai?
Nesta vida de mendigo
Que não tem mãe nem tem pai?
Não se afrija, nem se afobe,
O que com o tempo sobe,
O tempo mesmo derruba;
Tarvez ainda aoconteça
Que o Brasí de Cima desça
E o Brasí de Baxo suba.

Sofre o povo privação
Mas não pode recramá,
Ispondo suas razão
Nas colunas do jorná.
Mas, tudo na vida passa,
Antes que a grande desgraça
Deste povo que padece
Se istenda, cresça e redobre,
O Brasí de Baxo sobe
E o Brasí de Cima desce.

Brasí de Baxo subindo,
Vai havê transformação
Para os que veve sintindo
Abandono e sujeição.
Se acaba a dura sentença
E a liberdade de imprensa
Vai sê lega e comum,
Em vez deste grande apuro,
Todos vão tê no futuro
Um Brasí de cada um.

Brasí de paz e prazê,
De riqueza todo cheio,
Mas, que o dono do podê
Respeite o dereito aleio.
Um grande e rico país
Muito ditoso e feliz,
Um Brasí dos brasilêro,
Um Brasí de cada quá,
Um Brasí nacioná
Sem monopólo estrangêro.

sábado, 14 de outubro de 2017

A Metamorfose de Miquésia

Conto de R.Mineiro



O R.U. fechado, sem café-da-manhã e sem almoço. Nas portas cerradas o motivo: a reitoria não repassou à empresa terceirizada, Casa de Farinha, os pagamentos em atraso. Sem dinheiro, sem farinha.
- Ao menos não haverá filas...
- Nem filhas.
- A gente não quer só comida...
- A gente não quer ser comida.
Conheci Miquésia em 2013, little black block, nem preciso dizer que foi em junho, aquele mês que se estendeu até o fim do ano.
Cabelos crespos compridos. Sorriso sempre lindo.
Depois das lutas, desabrochou. Antigas pétalas caíram, raspou a lateral direita da cabeça e a esquerda continuou crescida. Veio a Copa, os 7 x 1, os #23, o Estelita.
A transformação não parou. Pelos cada dia mais longos, cabelos cada vez mais curtos. Pequeno corpo de menino. Lindo.
- É difícil ser mulher nesse mundo.
- É preciso tornar livre esse mundo.
Assistia Miquésia, desfilando sua altivez, todos os dias no CAC, em meio as ervas que levam às pedras daquele prédio. Com o olhar de um primo mais velho, acompanhava seus pequenos passos apressados. 22 anos, ácida.
- I know, I know, I know...
Suas asas começaram a crescer, já não cabiam na velha crisálida.
Como impedir o voo de uma negra borboleta?
A metamorfose terminou, os novos membros precisavam ser experimentados.
- Pés, para quê os quero se tenho asas para voar?!
- A noite será sua, filha da lua! Só tomam luzes por flores desavisadas mariposas.
A fome insaciável pelo primeiro voo e os inseparáveis óculos escuros confundiram Miquésia. No meio do dia não é o tempo para as bruxas voarem. Mesmo assim, nossa querida, subiu 13 andares para se alçar nos ares.
- Ninguém entenderá, mas faço porque (im)preciso.
Custaremos o resto de nossos dias procurando entender esta estranha mania que nos torna humanos. Desde sempre sonhamos voar.
12:30. Sol masculino à pino. Miquésia salta solitária. A casca de sua crisálida despedaça-se no chão. Nossa mariposa noturna, encandeada, voa bruxuleando rumo ao lado escuro da lua.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Consolo na Praia

Poema de Carlos Drummond de Andrade, in: A Rosa do Povo. Pág. 128. Editora Record. 2000


Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.