domingo, 18 de fevereiro de 2018

Dois Estudos

Poema de João Cabral de Melo Neto, in: Pedra do Sono


I
Tu és a antecipação
do último filme que assistirei.
Fazes calar os astros,
os rádios e as multidões na praça pública.
Eu te assisto imóvel e indiferente.
A cada momento tu te voltas
e lanças no meu encalço
máquinas monstruosas que envenenam reservatórios
sobre os quais ganhaste um domínio de morte.
Trazes encerradas entre os dedos
reservas formidáveis de dinamite
e de fatos diversos.
II
Tu não representas as 24 horas de um dia,
os fatos diversos,
o livro e o jornal
que leio neste momento.
Tu os completas e os transcendes.
Tu és absolutamente revolucionária e criminosa,
porque sob teu manto
e sob os pássaros de teu chapéu
desconheço a minha rua,
o meu amigo e o meu cavalo de sela.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

O Terceiro Seio

Biagio Pecorelli, in: Vários Ovários. Editora Edith.


posso te amar como um vão engole
um grito, como um rio carrega um tronco.
posso te amar como um nome aponta
um rosto, como um fogo aquece um
bicho, como um dedo é gangster de
um roubo. Como um filho acende
um riso, como uma onda, um barco e
um destino. Como uma onça, uma mata
e uma fome. Posso te amar mansinho
como um gato roça uma quina, como
uma nuvem roça um monte, te amar
pedacinho por pedacinho como um deus
a por pedrinha no lugar.
posso te amar os intestinos, Menina,
os precipícios, as feridas e as facas.
posso amar quilômetros e quilômetros
de ti, amar o teu terceiro seio. Pelas
brechas do teu corpo, amar cada erro teu
como quem cala flores, cada oposto e
cada mesmo teu, cada monstro disfarçado
de andorinha. Posso te amar como um
carro despossuído, como um ferro torto
que se alinha para rezar, como uma
ventania a revirar um campo de feno,
te amar como um cristo que desliza
sobre ti e faz da tua ausência peixe.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

A Tecelã

Poema de Mauro Mota


Toca a sereia na fábrica
e o apito como um chicote
bate na manhã nascente
e bate na tua cama
no sono da madrugada.
Ternuras de áspera lona
pelo corpo adolescente.
É o trabalho que te chama.
Às pressas tomas o banho,
tomas teu café com pão,
tomas teu lugar no bote
no cais de Capibaribe.
Deixas chorando na esteira
teu filho de mãe solteira.
Levas ao lado a marmita,
contendo a mesma ração
do meio de todo o dia,
a carne-seca e o feijão.
De tudo quanto ele pede,
dás só bom dia ao patrão,
e recomeças a luta
na engrenagem da fiação.
Ai, tecelã sem memória,
de onde veio esse algodão?
Lembras o avô semeador,
com as sementes na mão,
e os cultivadores pais?
Perdidos na plantação
ficaram teus ancestrais.
Plantaram muito. O algodão
nasceu também na cabeça,
cresceu no peito e na cara.
Dispersiva tecelã,
esse algodão quem colheu?
Tuas pequenas irmãs,
deixando a infância colhida
e o suor infantil e o tempo
na roda da bolandeira
para fazer-te fiandeira.
Ai, tecelã perdulária,
esse algodão quem colheu?
Muito embora nada tenhas,
estás tecendo o que é teu.
Teces tecendo a ti mesma
na imensa maquinaria,
como se entrasses inteira
na boca do tear e desses
a cor do rosto e dos olhos
e o teu sangue à estamparia.
Os fios dos teus cabelos
entrelaças nesses fios
e noutros fios dolorosos
dos nervos de fibra longa.
Ó tecelã perdulária,
enroscas-te em tanta gente
com os ademanes ofídicos
da serpente multifária.
A multidão dos tecidos
exige-te esse tributo.
Para ti, nem sobra ao menos
um pano preto de luto.
Vestes as moças da tua 
idade e dos teus anseios,
mas livres da maldição
do teu salário mensal,
com o desconto compulsório,
com os infalíveis cortes,
de uma teórica assistência,
que não chega na doença,
nem chega na tua morte.
Com essa policromia 
de fazendas, todo o dia,
iluminas os passeios,
brilhas nos corpos alheios.
E essas moças desconhecem
o teu sofrimento têxtil,
teu desespero fabril.
Teces os vestidos, teces 
agasalhos e camisas,
os lenços especialmente
para adeus, choro e coriza.
Teces toalhas de mesa
e a tua mesa vazia
Toca a sereia da fábrica,
e o apito como um chicote
bate neste fim de tarde,
bate no rosto da lua.
Vais de novo para o bote.
Navegam fome e cansaço
nas águas negras do rio.
Há muita gente na rua,
parada no meio-fio.
Nem liga importância à tua 
blusa rota de operária.
Vestes o Recife e voltas 
para casa, quase nua.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Para Recitar Antes de Adormecer

Poema de Rainer Maria Rilke, in: O Livro das Imagens


Eu queria cantar para dentro de alguém,
sentar-me junto de alguém e estar aí.
Eu queria embalar-te e cantar-te mansamente
e acompanhar-te ao despertares e ao adormeceres.
Queria ser o único na casa
a saber: a noite estava fria.
E queria escutar dentro e fora
de ti, do mundo, da floresta.
Os relógios chamam-se anunciando as horas
e vê-se o fundo o tempo.
E em baixo ainda passa um estranho
e acirra um cão desconhecido.
Depois regressa o silêncio. Os meus olhos,
muito abertos, pousaram em ti;
e prendem-te docemente e libertam-te
quando algo se move na escuridão.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Lembrança

Escrito no presídio de Aquiraz-CE, 4 / 2 / 1977. Oswald Barroso, in: Poemas do Cárcere e da Liberdade. pag. 25. Palma Publicações e Promoções Ltda. Fortaleza, 1979.


A lua te recordará
a branca noite
em que ela se despiu
e, vermelha,
se fez cúmplice
do nosso amor.

O mar te lembrará
nosso costume
de caminhar nas tardes
até o horizonte,
pois que o mar
também é cúmplice
dos namorados distantes.

E quando vires, amor,
num vão de céu
uma estrela,
tu não chorarás,
porque, então,
aprenderás o meu caminho.

Mas, quando o povo
andar triste pelos becos,
tu saberás do meu luto
e sentirás a dor
da dura separação.

Porém, se a multidão
ensaiar um canto,
tu saberás do meu riso
e nela me encontrarás.

sábado, 6 de janeiro de 2018

Brésil: Fête de rue du Nordeste

Cavalo-Marinho


Álbum lançado em 2003 pelo selo francês Buddah Musique, registros de Teca Calazans. O cavalo-marinho é um folguedo cênico típico da Zona da Mata norte pernambucana. Participam neste álbum do banco (onde os músicos e cantores ficam): Luiz Paixão (rabeca), Mestre Inácio (pandeiro), Biu Roque (vocal, baje), Mané Roque (vocal, baje), Lurdinha Soares (vocal, ganzá). [Wu Ming]