segunda-feira, 7 de agosto de 2017

II. for a good time call

Poema de Camillo José, in: Dakimakura Flutuante. Cepe Editora. 2017.


as horas como pele morta
entre os fios espessos
das coisas alvas
nossos corações
como parabólicas
dissipando-se
em goles ininterruptos
one two three drink
one two three drink
o encontro insondável
de dois mil satélites
o indício de algo
pálido e vertical
[keep my glass full
until morning light]
seremos chuva
à revelia da luz
deslizando ______
_____ sob a l_inha
das formas _______
_________corpóreas
// de peito aberto entrego-me
ao roçar hediondo dos dedos//
party girls don’t get hurt
e nada nos faltará.
--

sexta-feira, 28 de julho de 2017

se eu fosse escrever um roteiro de cinema

Poema de Mariana Vitti



se eu fosse escrever um roteiro de cinema
falaria do vazio e da dúvida como bergman
da incomunicabilidade como antonioni
da dor de existir como tarkovsky
com as cores do fassbinder
exaltaria a poesia do amor como godard
copiaria igual tarantino
seria polêmica como lars von trier
e sufocante como um suspense do hitchcock
criaria personagens de dimensões fellinianas
e neorrealismo felliniano, com neuroses
e fracassos mais pesados que toda a filmografia
do woody allen
e um ar de nouvelle vague e autobiografia
que faria truffaut chorar

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Que pode uma criatura senão

Poema de Carlos Drummond de Andrade


Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados amar?
.
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
.
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave
de rapina.Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.