sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Para Recitar Antes de Adormecer

Poema de Rainer Maria Rilke, in: O Livro das Imagens


Eu queria cantar para dentro de alguém,
sentar-me junto de alguém e estar aí.
Eu queria embalar-te e cantar-te mansamente
e acompanhar-te ao despertares e ao adormeceres.
Queria ser o único na casa
a saber: a noite estava fria.
E queria escutar dentro e fora
de ti, do mundo, da floresta.
Os relógios chamam-se anunciando as horas
e vê-se o fundo o tempo.
E em baixo ainda passa um estranho
e acirra um cão desconhecido.
Depois regressa o silêncio. Os meus olhos,
muito abertos, pousaram em ti;
e prendem-te docemente e libertam-te
quando algo se move na escuridão.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Lembrança

Escrito no presídio de Aquiraz-CE, 4 / 2 / 1977. Oswald Barroso, in: Poemas do Cárcere e da Liberdade. pag. 25. Palma Publicações e Promoções Ltda. Fortaleza, 1979.


A lua te recordará
a branca noite
em que ela se despiu
e, vermelha,
se fez cúmplice
do nosso amor.

O mar te lembrará
nosso costume
de caminhar nas tardes
até o horizonte,
pois que o mar
também é cúmplice
dos namorados distantes.

E quando vires, amor,
num vão de céu
uma estrela,
tu não chorarás,
porque, então,
aprenderás o meu caminho.

Mas, quando o povo
andar triste pelos becos,
tu saberás do meu luto
e sentirás a dor
da dura separação.

Porém, se a multidão
ensaiar um canto,
tu saberás do meu riso
e nela me encontrarás.

sábado, 6 de janeiro de 2018

Brésil: Fête de rue du Nordeste

Cavalo-Marinho


Álbum lançado em 2003 pelo selo francês Buddah Musique, registros de Teca Calazans. O cavalo-marinho é um folguedo cênico típico da Zona da Mata norte pernambucana. Participam neste álbum do banco (onde os músicos e cantores ficam): Luiz Paixão (rabeca), Mestre Inácio (pandeiro), Biu Roque (vocal, baje), Mané Roque (vocal, baje), Lurdinha Soares (vocal, ganzá). [Wu Ming]


domingo, 31 de dezembro de 2017

RELÓGIO DE PONTO

Poema de Alberto da Cunha Melo


Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim os jogos,
a poesia, todos os pássaros,
mais do que tudo: todo o amor.

De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e atravessaremos os córregos
cheios de areia, após as chuvas.
Se alguma súbita alegria
retardar o nosso regresso,
um inesperado companheiro
marcará o nosso cartão.
Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim as faixas
da vitória, a própria vitória,
mais do que tudo: o próprio Céu.
De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e lavaremos as pupilas
cegas, com o verniz das estrelas.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Onze Linhas, Quase Nada

Poema de Emanuel Jorge Botelho


acabei, há pouco, de pensar.
não encontrei, em mim, nada que mereça ter um nome.
ficar entre duas aspas, disse à minha voz,
não me salva do abismo.
não há nada que segure as palavras
da vergonha,
e a queda não tem amparo
quando se cai de punhos lassos.
todos os dias morre um homem que só queria
ter um pouco mais de tempo, digo,
e escrevo a minha culpa dentro das minhas mãos.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

O desejo

Poema de Carlos Nascimento


O desejo
é passar pelos touros,
adentrar o curral,
socorrer Cleonice
de sua bondade.
Me despir da vontade
ganhadora de prêmios.
Travar mais desafios
com o consumo à frente.
Arregar da batalha
e dormir na primeira calçada
que enxergar nesta rua.
Encarar a insônia
abraçar o engano.
Viver longe de ti.